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O meu bisavô faleceu jovem, era engenheiro civil. A minha avó falava frequentemente dele, e falava apaixonadamente, fruto de uma admiração filial fora do comum. No fundo a minha avó também era fora do comum.
"Ele teria ajudado a reconstruir o Japão pós guerra." - dizia ela com um brilho diferente nos olhos, mas ficara órfão e o Japão da época não estava bem. Resolveu então imigrar para o Brasil, mas a sua mente se voltava frequentemente para o pai. O pai que ela sempre admirou e fazia questão de afirmar de maneira que, com ela, aprendi a amar o meu bisavô. E não somente amar, mas também me ligar com as cousas do oriente.
A vovó colocava uma poção de arroz recém cozido numa pequena taça, levando-a para o santuário. No santuário elevava a taça na altura da fronte saudando o seu pai.
"Pai estou longe de ti, das nossas origens, mas jamais o esqueci..." Feito esta saudação depositava a taça no santuário. Juntava as mãos espalmadas na altura da boca e imergia no passado. Esses momentos eram sagrados para a vovó, cujo nome pronuncio sem receio pelo fato de estar dando o seu testemunho.
- Vovó Shigueno, és capaz de me ver?
Estou na minha dimensão, consigo fazer uma imagem mental de ti, e com perfeição, mas não consigo vê-la.
- É capaz de me ouvir?
Posso perfeitamente fazer sonar, silenciosamente, a sua voz pausada e calma, mas não consigo ouví-la.
- Está acompanhando os meus passos?
Posso imaginá-la caminhando pelas ruas de Santa Fé do Sul, mas não consigo ver onde andas.
Se és capaz de me ver, ouvir e se está acompanhando os meus passos tenho um pedido a fazer:
- Ohayo, vovó! Proteja a mim, os meus familiares e todos que estão me acompanhando.
Caminho vovó, caminho porque é o mínimo que posso fazer pelos meus.
Caminho, os meus pés estão inchados de tanto fazê-lo, mas não posso parar.
Não quero bloquear a circulação do meu sangue, com ele estou regando o solo dos nossos antepassados. Que o meu sangue vertido purifique resgatando os nossos irmãos de outrora.
Apesar desta minha autoconfiança, herança de ti, do meu e nosso passado, preciso contar contigo.
- Proteja, me avise quando o perigo se aproximar.
Avise em sonhos ou em sinais no meu estado de vigília.
- Nós nunca havíamos imaginado que iríamos nos encontrar aqui, não é mesmo? Em um ambiente enorme de grande e livre. É, eu acho que finalmente encontramos a nossa liberdade vovó, ou aquela que estávamos buscando juntos. Junte-se a mim agora, não fraqueje. Abandone a época quando estávamos olhando o tempo todo para o infinito, ou não é infinito as concretudes que nos rodeia? É infinito e não quero passar o resto dos meus dias correndo atrás do infinito, querendo dominar o indomável, controlar o incontrolável e, o pior, querendo congelar a eternidade. Ou não é uma eternidade os templos e monumentos dos sacerdotes espalhados nas quatro direções do globo terrestre? Deixemos de olhar para o infinito, não vamos mais correr atrás do tempo como fazíamos antes. Junte-se a mim.
Está certo que lhe pedi proteção, e é porque existe uma certa vulnerabilidade viver o infinito pessoal, uma vulnerabilidade controlável pois vou estar sempre atento aos sinais.
- Sinalize vovó, por favor sinalize, está bem?
É este o meu caminhar, que quero que seja nosso.
Um caminhar meu, Tani e que pode ser seu, Shigueno, ou nosso que está longe daquilo que fazíamos ao depositar as coroas de flôres nas tumbas dos nossos antepassados.
Aqui não existem tumbas, coisas em si, mas sinais gráficos.
Existe a voz do silêncio. São palavras, frases, composições que se encadeiam na velocidade da luz no interior de um mundo que nunca havíamos imaginado existir antes.
É daqui que, vovó Shigueno, a abordo dizendo:
Saudações Fraternas,
do seu neto Tani.
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Há 5 anos

3 comentários:
Oi Tani,linda a sua conversa com sua avó.Eu perdi minha avó com oito anos,tenho poucas lembranças mas jamais conseguiria falar com ela dessa forma,até mesmo porque nem sei onde ela possa se encontrar.Você tem uma forma diferente de ver as pessoas queridas que se foram,sem ficar penalizado,mas como se elas apenas passassem a viver em outro mundo não muito distante do seu.Fiquei emocionada,as atitudes orientais
me chamam muito a atenção,não que eu queira mudar minhas convicções,mas de uma certa forma eu as admiro porque me deixa ver falhas nas minhas,ao mesmo tempo entendo que são diferenças culturais de Países.Muito linda a sua saudação,abraços,Mirian.
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Obrigado pelas observações Mirian. Diferente de você tive um convívio longo com a vovó. Quer dizer longo maneira de dizer uma vez que coloquei o Pé na Estrada jovem, com quinze anos de idade eu já estava caminhando pelas ruas de São Paulo. Só que dos quatorze anos no convívio familiar metade foram passados com a vovó, longo não? De maneira que, confesso, o que escrevo vem muito dela.
Realmente Mirian, a postura de um oriental em relação aos antepassados é marcante e os nikkeis de uma maneira geral carregam esta herança cultural.
E, na realidade, tudo o que foi escrito é apenas um vislumbre de algo mais complexo e que pode servir de contexto para a atual situação nipônica.
Eu fiquei contente que a saudação lhe transmitiu algo Mirian.
Abraços, Tani.
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Oi Tani,tudo bem,exponha um pouco
mais sobre:" A Postura de um oriental em relação aos antepassados"-"Os Nikkeis de uma maneira geral carregam essa herança cultural"-
O que significa Nikkei para voces,eu não faço idéia.
De que forma carregam esta cultura aos que se foram.Vou ficar sabendo mais sobre um País que admiro muito e que está dentro dos meus planos futuros conhecer.Abraços,Mirian.
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