terça-feira, 14 de agosto de 2007

Namastê, Jaq!

NAMASTÊ, JAQ!


Levanto animado. Dormi bem e foi um sono profundo.
Harajuku, Tókio. Quando penso em Pé na Estrada recordo Harajuku. Muitas cousas convergem para os arredores da Estação JR Harajuku, para o pequeno quadrilátero que envolve a rua Takeshita e a avenida Omotesando.
A Toshi está preparando o café da manhã.
“Mama, que horas são?”
“Oito e quinze.” – responde ela. Levanto, pego o violão, uma das minhas primeiras aquisições no Japão, e faço a seqüência melódica de “Garota de Ipanema”.
“Olha que coisa mais linda
mais cheia de graça...”
Estranhei quando vi, pela primeira vez, os jovens de Harajuku. Foi como se estivesse vendo o Djalma na minha frente. Ele, nas décadas de 80 e 90, era um espelho da geração hippie. Na verdade nunca se ligou ao movimento, mas sempre agiu como tal. Cabelos longos, sandálias, mochila nas costas, desprezo pelas coisas mundanas e ecos do oriente.
“Namastê, Djalma!”
Tínhamos contatos esporádicos e somente de final de semana, quando então falávamos um pouco de tudo. As nossas referências eram o sistema, a sociedade e os mestres. Vivíamos em um mundo à parte, eram estes os nossos sentimentos uma vez que éramos nós, a Sociedade e sistema à parte.
Falávamos das cousas do mundo e de colocar o Pé na Estrada, nisso o Djalma era experiente de maneira que a nossa amizade foi longa.
Começamos a divergir no final da década de 90. Finalizamos os nossos contatos em 92, e com uma inversão.
“Vou dar uma de Ulisses.” – comentei para um atônito Djalma. Não estávamos nos entendendo mais, ele havia se encaixado no sistema. Passou a ter uma atividade mais regular, mais por questão de sobrevivência do que qualquer outra cousa. Eu, por outro lado, havia iniciado um período equivalente aos dos seus anos 80 e 90.
Olho para o relógio, nove e quinze. Continuo com a “Garota”.
“Moça do corpo dourado
do sol de Ipanema”
“Mama, ainda bem que amanheceu limpo!” – comento.
Ela olha através da janela da cozinha e observa o céu claro, sem nuvens. Responde confirmando o meu comentário.
“Porque ainda bem?”
“Vou para Harajuku! Lembra-se?” Fora a decisão da semana. Na viagem anterior havíamos caminhado nas proximidades ou no bairro Shinjuku.
A Toshi termina de coar o café, assa um pão de forma e cobre com margarina. Oferece para mim e faz o dela. Falo da minha empolgação com o bairro.
“Você gosta de lá não?”
“É que me faz lembrar do Djalma.”
“Djalma?”
“Sim, um amigo. Éramos do contra. Sabe? Contra o sistema. Bons tempos aquele.”
O sistema era tudo ou quase tudo, era o governo, a policia e a política. Tinha náuseas, sentia uma repulsão visceral a tudo que lembrava poder. O Djalma levava esta posição ao extremo.
“Eram rebeldes então.”
“Sim, ao extremo. Não exatamente eu, tinha o meu lado conservador. Gostava do ambiente acadêmico e tinha consciência de que tinha os meus privilégios. No caso do Djalma era Deus no céu, os homens e ele na terra.” Não queria compromisso com ninguém a não ser consigo mesmo.
“Olha a ironia do contraste. No nosso ultimo encontro ele estava de terno e gravata. Para ele eu havia capitulado uma vez que estava com a passagem da JAL nas mãos. Na verdade eu simplesmente estava colocando o Pé na Estrada, ele é que havia se encaixado no sistema.” O final da década de oitenta havia sido peculiar para o Djalma, o sistema havia atingido o vale. As referências anteriores como o Paulo Coelho e Castaneda não lhe serviam mais, não havia mais nada a fazer a não ser capitular.
A Omotesando está interditada nas proximidades da Estação JR Harajuku.
Jovens tomam conta das duas pistas da avenida. A maioria simplesmente passa observando os contrastes do local. Uma jovem gorda senta na calçada. Ela se realiza sendo o alvo de atenções com o seu véu, a grinalda e os lábios carnudos lambuzados com um batom vermelho cintilante.
Uma dupla faz a sua performance com um violão e um sax. Gostam de Harajuku e, em particular, do ambiente da Omotesando.
“JAQ & LITTLE BAND”
O Jaq abre uma pauta musical fazendo pose com o seu sax. O seu companheiro de violão usa uma camiseta listrada vermelha e calça preta. Canta, mais declama do que canta.
Escovo os dentes e penteio o cabelo. Vou para a área de serviço. A silhueta do Fuji domina a área, os seus lençóis freáticos alimentam o rio que corre nas proximidades e a água que sai da torneira. Preparo para a viagem.
“Depois conto como foi.” – digo para a Toshi.
“Te cuida.” Tomo o bus que, em uma hora e meia, me leva até Shinjuku. Em Shinjuku tomo o metro rumo a Harajuku.
O metro para na Estação. Subo a escada que vai dar na passarela, caminho pela mesma ganhando a saída principal. Caminho para o lado direito de quem sai da Estação. Dou de frente de uma área livre onde grupos de jovens realizam performances. Encontro com a jovem gorda, ela está olhando para um espelho de mão. Os seus lábios carnudos lambuzados pelo batom vermelho cintilante refletem no espelho. A sua colega do lado, igualmente fantasiada de noiva, ajeita o seu vestido branco. Estão à margem, sem serem marginais. Elas demonstram as suas rebeldias vivendo no interior do sistema, o vestido de noiva custa uma pequena fortuna.
Rua Takeshita, um formigueiro humano.
Vejo uma foto de Kimutaku, ela está no meio de inúmeras outras. Pego e vejo que ela não está produzida. Nela Kimutaku parece como um qualquer que está caminhando pela Takeshita, sem a aura que normalmente o envolve quando se apresenta nos seus shows e programas de TV. Caminho mais e acabo saindo da Takeshita.
Avenida Omotesando, grupos de performances.
Encontro com um animado Jaq.
Na sua frente, em um pedaço de papelão, lê-se o recado.

“JAQ & LITTLE BAND
4.22 Ruido / 5.15 Garage”

Farão as suas estréia nas “discos” Ruído e Garage nos dias vinte e dois de abril e quinze de maio.
O Jaq está com o cabelo tingido de vermelho e usa um vistoso brinco. É alto e o seu sapato de salto ressalta ainda mais a sua altura. Está transfigurado, vivendo e sentindo o sabor da liberdade. Se funde nas suas canções, no sax, na sua Pequena Banda e no público. O seu companheiro de violão toca preguiçosamente. Age como se fosse o pano de fundo da Banda.
O Jaq pega o sax e simula um êxtase, ensaia alguns passos de dança.
“Lembro como se fosse hoje
o dia que te encontrei.
Você estava linda, sorridente.” – declama.
Na frente da banda um grupo de jovens aplaude cada término de apresentação.
Sinto um arrepio subir pela minha coluna, os meus pensamentos se voltam para a Toshi que está esperando o meu retorno. Recordo nitidamente o ultimo encontro que havia tido com o Djalma, é como se a continuação de tudo aquilo estivesse no Jaq. A noite começa a colocar o seu negro manto sobre Harajuku. Mesmo sem o meu violão acompanho-o com o ultimo verso da “Garota”.
“Ah! Se ela soubesse que quando ela passa
o mundo inteirinho se enche de graça
e fica mais lindo por causa do amor.”
Naquele momento tudo se passa como se mundos estivessem se fundindo.
“Namastê, Jaq!”

6 comentários:

Anônimo disse...

Oi! meu amigo tudo bleza com vcê?
Estou passando ler seu blog,confesso que me senti viajando pelo Japão através do seu relato.. Você tem talênto pra escritor. Parabéns e continue; sempre que possivel darei uma passada pra conferir. Um abraço

Silvério

Unknown disse...

Nilson,
Leio seu texto e me vejo em uma ampla sala, admirando pinturas; paisagens desconhecidas. Voce coloca as palavras como um pintor coloca as cores de sua paleta na tela.
Meus olhos desfilaram pelas cores de suas letras e, minh'alma extasiou-se nos tons dourados, pastéis e argenteos que voce pintou com suas letras. Viajei por terras desconhecidas, encontrei pessoas desconhecidas e também conhecidos como o Djalma.
O Djalma vivia entre o transe e a realidade, havia momentos em que ele, em seu transe, acreditava que agentes do SNI perseguiam-no. Tive oportunidade de encontra-lo trajando tal terno, estava defronte o Café Regina, na Barão de Jaguara, havia capitulado ao sistema que condenava. Mas seu transe ainda o assombrava, porém agora eram UFOs que o perseguiam. Por fim, sumiu, ninguém mais o viu. Seria o transe uma realidade?
Um abraço

Henrique

Unknown disse...

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Henry,
até hoje eu entendo que pequei com o Djalma. Eu, creio e creio que você concorda comigo, era um dos que mais conversava com ele na Sociedade. Tinha consciência de que era usado, mas nunca me importava com essas cousas. Mais do que isso, eu entendia que estava ajudo-o se manter no nosso meio, por isso não me importava.
Mas pequei porque não consegui, apesar dos nossos diálogos, trazê-lo de volta à realidade. Por outro lado, levando em conta o que me disse, aparentemente os seus transes foram uma constante. Eu, na verdade, nunca o acompanhei desta maneira, tanto que desconheço a sua fase "óvnica": pós 92? Mas,`a parte uma possível abdução, para mim seria difícil imaginar uma concretude maior para ele do que àquela que a Sociedade lhe apresentou.
Para mim Henry, o maior desafio do Djalma era sair do seu segundo quadrante.
Desejo ao Djalma tudo de bom Henry, que atualmente ele esteja superando o terceiro e particular quadrante isentando-me assim dos nossos e comuns pecados.
Abraços Henrique,
Nilson
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Unknown disse...

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Oi, Silvério.
Obrigado pelo estímulo, é muito a sua gentileza.
Abraços,
Nilson
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Mirian Jasmim disse...

Oi tani,estou novamente fuxicando seu blogger,li um comentário do Henry,e estou me entindo um pouco melhor ao que ele sentiu lendo este texto.Você sabe que me intereço bastante pelo Japão e no momento você é o elo que me prende a ele,eu fico viajando realmente, quando você descreve com precisão, os detalhes dos lugares por onde passa,fico entusiasmada,este seu post é de agosto de 2007,e como não comentei na época,estou relendo.O Henry acha como pintura,eu como paisagens vista pela janela do ônibus ou avião quando estou viajando,coisa que faço muito a trabalho,amei relê-lo,abraços Mirian.

Unknown disse...

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E vamos em frente. MJ, sabia que tenho textos mais longos publicados? Em coletâneas da Scortecci.
Qualquer coisa me dê um toque.
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