segunda-feira, 27 de agosto de 2007
Janelas para o mundo.
Escrevi o poema "Janelas para o mundo" no dia 14 de julho de 2007, o qual foi enviado para inúmeros amigos do orkut.
JANELAS PARA O MUNDO
Dei o meu “Parabéns” para a Lúcia.
“Lúcia, bom dia!
Feliz aniversário...”
Uma mensagem, um clic e pedi a visao de tudo.
Um clic e a janela se fechou para mim, uma outra janela do outro lado do mundo abriu para a Lúcia.
As palavras se foram, elas já não me pertencem mais.
Foram passadas para a Lúcia, para o mundo.
Mundo, grande mundo plano, sem teto, sem paredes e feito de luz.
Amigos, colegas e desconhecidos passam pela mensagem, pronunciam as mesmas palavras.
Que já não são mais minhas, mas que podem ser transferidas para outras janelas.
Janelas que podem se fechar, e abrirem para outros lados do mundo.
Que o amor seja disseminado.
Que a paz seja bendita.
Entre os homens de todos os mundos.
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segunda-feira, 20 de agosto de 2007
SED, SIMULAÇÃO, REPRESENTAÇÃO
Estou de frente da tela do MC, um notebook. Ouço Misia, a sua voz cristalina me sugere um retorno no tempo. A Toshi está melhorando o seu blog. Lá fora a construtora Komachi dá os retoques finais no sobrado plantado do outro lado da rua. Um funcionário da construtora estaciona um utilitário nas proximidades.
“I belive....”
O forte sol ilumina o prédio da Engenharia Elétrica, são poucos os professores que se mantém no local. Uma parcela foi almoçar nas suas respectivas residências, outros fazem-no no restaurante do campus e uma minoria permanece nas suas salas escrevendo artigos, preparando aulas, corrigindo provas ou estão entregues pelo calor do sol. Eu, Tani, ocupo a minha escrivaninha da Engenharia Elétrica.
Concentro-me na SED. Livros e folhas A4 estão esparramados por todos os lados. Um pacote de impressos, recém tiradas do micro, repousa no canto. Uma das folhas, bem no meio do pacote, exibe um Gráfico.
A imagem anterior está fixa, não muda, continua como sempre foi e tem me acompanhado onde quer que vá.
“I belive
Kawaranai mono ga aru.”
Depois que deixei o prédio da EE sonhei que ganharia a liberdade de percorrer livremente os seus corredores. Nos meus sonhos percorria, caminhava sentindo o ambiente. Voava, planava, caminhava observando no astral o que estava fisicamente fixo.
O prédio da EE foi feito em um buraco, resultado de uma terraplanagem de um terreno em declive. A terra retirada fora transportada para a Praça da Paz, que está um nível acima de onde estou. O sol cobre a área e a impressão que tenho é de estar dentro de uma estufa.
O suor escorre pela minha fronte.
Uma gota, cristalina, cai e vai repousar no Gráfico.
A Maria, amiga que ocupa uma outra escrivaninha em uma saleta ao lado, chega. Mulata de bom coração e de Minas Gerais.
“Olá Tani?”
“Tudo bem Maria?” Ela responde e vai ocupar a sua escrivaninha.
Vivemos em mundos diferentes. Ela trabalha em uma área diferente da minha.
SED são as iniciais de Simulação de Eventos Discretos, a área onde trabalho. Os avanços são milimétricos. Destaco o Gráfico do pacote e analiso procurando encontrar alguma relação com o Trópico R, encontro uma correlação e me fixo nele.
“Ei Maria? Está aí?”
“Sim, porquê?”
“Você viu o Ivanil por aí?” – respondo. Queria lhe mostrar o Gráfico.
“Olha, conversei com ele de manhã. Vai dar aulas na parte da tarde. Dá um chego lá, agora.”
“Obrigado pela dica Maria, deve ter ido almoçar. Mais tarde dou um chego lá.”
Levanto, caminho pelo corredor que me conduz à uma escada. Ultrapasso os lances da escada, checo a sala do Prof., atravesso a rua e ganho a liberdade da Praça da Paz.
Um funcionário da Komachi aciona uma furadeira. O barulho atravessa as paredes do prédio do nosso apartamento. Deixo a tela do MC de lado e dou um giro pelo quintal.
A Ludwigia Arcuata ganhou o espaço aéreo do Lago Azul, está espalhando as suas raízes nas finas areias do Rio Negro. De manhã fiz algo que estava relutando fazê-lo, espalhei calcáreo no quintal. Como pelo menos três anelídelos foram desalojados do seu habitat após a aplicação do calcáreo, faço uma ronda pelos locais aplicados checando se não há nenhum deles perdidos pela superfície. Vejo que está tudo bem, uma outra Ludwigia se desenvolve no meu plantado e, como a outra, ganhou o espaço aéreo. A noite as folhas da Ludwigia fecham, abrem no amanhecer e recebem o rei do nosso sistema: o sol. Não sei quais foram os critérios e de que maneira, mas os serviços da Google estão me dispondo o Archimedes.
Procuro um lugar fresco na Praça da Paz. Escolho um nas proximidades onde havia sentado com a minha ex Branca. Inspiro fundo, prendo a respiração e expiro. Repito a manobra que me ajuda a concentrar no Gráfico. Olho para ele fixamente. O CPqD, no qual tive uma breve passagem com o Seiji, está distante.
Jogo o Gráfico para o alto. Jogo observando os movimentos da folha e, para a minha surpresa, ela é repentinamente levada, por uma lufada, na direção leste.
Corro, a folha se distancia.
Corro mais ainda, mas a folha, parecendo dotada de vontade própria, segue mais rápido se distanciando de mim.
Tropeço e caio.
Uma folha de amora se destaca do galho, faz movimentos pendulares e cai suavemente nos meus pés. O Gráfico, que havia desaparecido do meu campo visual, é substituído pela folha. Na Komachi reina o silêncio, olho para a Ludwigia se preparando para o anoitecer.
Entro e fecho a porta da cozinha.
Coloco o fone de ouvido, a Misia continua cantando.
“I belive
Kawaranai mono ga aru.” Sou levado pela suave voz da cantora.
“Maria”
“O que é?”
“Acabei de completar. Dê uma lida, é a versão definitiva. Se tiver alguma sugestão...” Levanto, saio da frente da tela do MC. Vou dar uma volta, a pedidos, na loja de departamentos que existe nas proximidades.
Ufo Catcher, 100 shop, mangá e outras cousas mais.
Tani
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
JACQUES DERRIDA, Desconstrução e Rede.
JACQUES DERRIDA, O EXPOENTE DE UMA ÉPOCA
Falar sôbre Derrida é relativamente fácil, mesmo para quem nunca esteve em contato com ele. Mais ainda, mesmo para quem nunca esteve na academia. Basta colher informações, definir a abordagem e copidescar.
Para exemplificar veja abaixo o Derrida da WIKIPEDIA.
"Jacques Derrida (El Biar, Argélia, 15 de julho de 1930 — Paris, 8 de outubro de 2004) foi um importante filósofo francês.
Criador do método filosófico chamado desconstrução. O seu trabalho é frequentemente associado com o pós-estruturalismo e o pós-modernismo (esta última associação encontra-se presente tanto quanto Jean-François Lyotard é a relação mais próxima entre a desconstrução e o pós-modernismo, propondo uma significação filosófica deste último). Entre as principais influências de Derrida encontram-se Sigmund Freud e Martin Heidegger."
Só neste pequeno trecho vê-se uma grande quantidade de links. E links esses que desembocam em outros sites que, por sua vez, se multiplicam em outros sites mais. Sites que significam informações que, por sua vez, podem se transformar em fontes de consultas e referências: citações.
Assim, falar sôbre Derrida, desconstrução, pós-estruturalismo, pós-modernismo, Lyotard, Freud e Heidegger poderia ser um excelente início de uma dinâmica de grupo, ou o início de uma Rede.
Pois se a partir de uma fala particular outros, adotando o mesmo mecanismo, fizerem o mesmo e incluindo os particulares dentro de um contexto, fechando assim um círculo, estaríamos estabelecendo aí um círculo de amizade dinâmico no mínimo bipolarizado.
De bipolar para rede...
Coloquei Derrida somente a título de exemplo, podendo ser outros temas quaisquer. Pode se falar de jardinagem, natureza, aquarismo, turismo, culinária etc.
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terça-feira, 14 de agosto de 2007
Namastê, Jaq!
Levanto animado. Dormi bem e foi um sono profundo.
Harajuku, Tókio. Quando penso em Pé na Estrada recordo Harajuku. Muitas cousas convergem para os arredores da Estação JR Harajuku, para o pequeno quadrilátero que envolve a rua Takeshita e a avenida Omotesando.
A Toshi está preparando o café da manhã.
“Mama, que horas são?”
“Oito e quinze.” – responde ela. Levanto, pego o violão, uma das minhas primeiras aquisições no Japão, e faço a seqüência melódica de “Garota de Ipanema”.
“Olha que coisa mais linda
mais cheia de graça...”
Estranhei quando vi, pela primeira vez, os jovens de Harajuku. Foi como se estivesse vendo o Djalma na minha frente. Ele, nas décadas de 80 e 90, era um espelho da geração hippie. Na verdade nunca se ligou ao movimento, mas sempre agiu como tal. Cabelos longos, sandálias, mochila nas costas, desprezo pelas coisas mundanas e ecos do oriente.
“Namastê, Djalma!”
Tínhamos contatos esporádicos e somente de final de semana, quando então falávamos um pouco de tudo. As nossas referências eram o sistema, a sociedade e os mestres. Vivíamos em um mundo à parte, eram estes os nossos sentimentos uma vez que éramos nós, a Sociedade e sistema à parte.
Falávamos das cousas do mundo e de colocar o Pé na Estrada, nisso o Djalma era experiente de maneira que a nossa amizade foi longa.
Começamos a divergir no final da década de 90. Finalizamos os nossos contatos em 92, e com uma inversão.
“Vou dar uma de Ulisses.” – comentei para um atônito Djalma. Não estávamos nos entendendo mais, ele havia se encaixado no sistema. Passou a ter uma atividade mais regular, mais por questão de sobrevivência do que qualquer outra cousa. Eu, por outro lado, havia iniciado um período equivalente aos dos seus anos 80 e 90.
Olho para o relógio, nove e quinze. Continuo com a “Garota”.
“Moça do corpo dourado
do sol de Ipanema”
“Mama, ainda bem que amanheceu limpo!” – comento.
Ela olha através da janela da cozinha e observa o céu claro, sem nuvens. Responde confirmando o meu comentário.
“Porque ainda bem?”
“Vou para Harajuku! Lembra-se?” Fora a decisão da semana. Na viagem anterior havíamos caminhado nas proximidades ou no bairro Shinjuku.
A Toshi termina de coar o café, assa um pão de forma e cobre com margarina. Oferece para mim e faz o dela. Falo da minha empolgação com o bairro.
“Você gosta de lá não?”
“É que me faz lembrar do Djalma.”
“Djalma?”
“Sim, um amigo. Éramos do contra. Sabe? Contra o sistema. Bons tempos aquele.”
O sistema era tudo ou quase tudo, era o governo, a policia e a política. Tinha náuseas, sentia uma repulsão visceral a tudo que lembrava poder. O Djalma levava esta posição ao extremo.
“Eram rebeldes então.”
“Sim, ao extremo. Não exatamente eu, tinha o meu lado conservador. Gostava do ambiente acadêmico e tinha consciência de que tinha os meus privilégios. No caso do Djalma era Deus no céu, os homens e ele na terra.” Não queria compromisso com ninguém a não ser consigo mesmo.
“Olha a ironia do contraste. No nosso ultimo encontro ele estava de terno e gravata. Para ele eu havia capitulado uma vez que estava com a passagem da JAL nas mãos. Na verdade eu simplesmente estava colocando o Pé na Estrada, ele é que havia se encaixado no sistema.” O final da década de oitenta havia sido peculiar para o Djalma, o sistema havia atingido o vale. As referências anteriores como o Paulo Coelho e Castaneda não lhe serviam mais, não havia mais nada a fazer a não ser capitular.
A Omotesando está interditada nas proximidades da Estação JR Harajuku.
Jovens tomam conta das duas pistas da avenida. A maioria simplesmente passa observando os contrastes do local. Uma jovem gorda senta na calçada. Ela se realiza sendo o alvo de atenções com o seu véu, a grinalda e os lábios carnudos lambuzados com um batom vermelho cintilante.
Uma dupla faz a sua performance com um violão e um sax. Gostam de Harajuku e, em particular, do ambiente da Omotesando.
“JAQ & LITTLE BAND”
O Jaq abre uma pauta musical fazendo pose com o seu sax. O seu companheiro de violão usa uma camiseta listrada vermelha e calça preta. Canta, mais declama do que canta.
Escovo os dentes e penteio o cabelo. Vou para a área de serviço. A silhueta do Fuji domina a área, os seus lençóis freáticos alimentam o rio que corre nas proximidades e a água que sai da torneira. Preparo para a viagem.
“Depois conto como foi.” – digo para a Toshi.
“Te cuida.” Tomo o bus que, em uma hora e meia, me leva até Shinjuku. Em Shinjuku tomo o metro rumo a Harajuku.
O metro para na Estação. Subo a escada que vai dar na passarela, caminho pela mesma ganhando a saída principal. Caminho para o lado direito de quem sai da Estação. Dou de frente de uma área livre onde grupos de jovens realizam performances. Encontro com a jovem gorda, ela está olhando para um espelho de mão. Os seus lábios carnudos lambuzados pelo batom vermelho cintilante refletem no espelho. A sua colega do lado, igualmente fantasiada de noiva, ajeita o seu vestido branco. Estão à margem, sem serem marginais. Elas demonstram as suas rebeldias vivendo no interior do sistema, o vestido de noiva custa uma pequena fortuna.
Rua Takeshita, um formigueiro humano.
Vejo uma foto de Kimutaku, ela está no meio de inúmeras outras. Pego e vejo que ela não está produzida. Nela Kimutaku parece como um qualquer que está caminhando pela Takeshita, sem a aura que normalmente o envolve quando se apresenta nos seus shows e programas de TV. Caminho mais e acabo saindo da Takeshita.
Avenida Omotesando, grupos de performances.
Encontro com um animado Jaq.
Na sua frente, em um pedaço de papelão, lê-se o recado.
“JAQ & LITTLE BAND
4.22 Ruido / 5.15 Garage”
Farão as suas estréia nas “discos” Ruído e Garage nos dias vinte e dois de abril e quinze de maio.
O Jaq está com o cabelo tingido de vermelho e usa um vistoso brinco. É alto e o seu sapato de salto ressalta ainda mais a sua altura. Está transfigurado, vivendo e sentindo o sabor da liberdade. Se funde nas suas canções, no sax, na sua Pequena Banda e no público. O seu companheiro de violão toca preguiçosamente. Age como se fosse o pano de fundo da Banda.
O Jaq pega o sax e simula um êxtase, ensaia alguns passos de dança.
“Lembro como se fosse hoje
o dia que te encontrei.
Você estava linda, sorridente.” – declama.
Na frente da banda um grupo de jovens aplaude cada término de apresentação.
Sinto um arrepio subir pela minha coluna, os meus pensamentos se voltam para a Toshi que está esperando o meu retorno. Recordo nitidamente o ultimo encontro que havia tido com o Djalma, é como se a continuação de tudo aquilo estivesse no Jaq. A noite começa a colocar o seu negro manto sobre Harajuku. Mesmo sem o meu violão acompanho-o com o ultimo verso da “Garota”.
“Ah! Se ela soubesse que quando ela passa
o mundo inteirinho se enche de graça
e fica mais lindo por causa do amor.”
Naquele momento tudo se passa como se mundos estivessem se fundindo.
“Namastê, Jaq!”
