NAMASTÊ, JAQ!
Levanto animado. Dormi bem e foi um sono profundo.
Harajuku, Tókio. Quando penso em Pé na Estrada recordo Harajuku. Muitas cousas convergem para os arredores da Estação JR Harajuku, para o pequeno quadrilátero que envolve a rua Takeshita e a avenida Omotesando.
A Toshi está preparando o café da manhã.
“Mama, que horas são?”
“Oito e quinze.” – responde ela. Levanto, pego o violão, uma das minhas primeiras aquisições no Japão, e faço a seqüência melódica de “Garota de Ipanema”.
“Olha que coisa mais linda
mais cheia de graça...”
Estranhei quando vi, pela primeira vez, os jovens de Harajuku. Foi como se estivesse vendo o Djalma na minha frente. Ele, nas décadas de 80 e 90, era um espelho da geração hippie. Na verdade nunca se ligou ao movimento, mas sempre agiu como tal. Cabelos longos, sandálias, mochila nas costas, desprezo pelas coisas mundanas e ecos do oriente.
“Namastê, Djalma!”
Tínhamos contatos esporádicos e somente de final de semana, quando então falávamos um pouco de tudo. As nossas referências eram o sistema, a sociedade e os mestres. Vivíamos em um mundo à parte, eram estes os nossos sentimentos uma vez que éramos nós, a Sociedade e sistema à parte.
Falávamos das cousas do mundo e de colocar o Pé na Estrada, nisso o Djalma era experiente de maneira que a nossa amizade foi longa.
Começamos a divergir no final da década de 90. Finalizamos os nossos contatos em 92, e com uma inversão.
“Vou dar uma de Ulisses.” – comentei para um atônito Djalma. Não estávamos nos entendendo mais, ele havia se encaixado no sistema. Passou a ter uma atividade mais regular, mais por questão de sobrevivência do que qualquer outra cousa. Eu, por outro lado, havia iniciado um período equivalente aos dos seus anos 80 e 90.
Olho para o relógio, nove e quinze. Continuo com a “Garota”.
“Moça do corpo dourado
do sol de Ipanema”
“Mama, ainda bem que amanheceu limpo!” – comento.
Ela olha através da janela da cozinha e observa o céu claro, sem nuvens. Responde confirmando o meu comentário.
“Porque ainda bem?”
“Vou para Harajuku! Lembra-se?” Fora a decisão da semana. Na viagem anterior havíamos caminhado nas proximidades ou no bairro Shinjuku.
A Toshi termina de coar o café, assa um pão de forma e cobre com margarina. Oferece para mim e faz o dela. Falo da minha empolgação com o bairro.
“Você gosta de lá não?”
“É que me faz lembrar do Djalma.”
“Djalma?”
“Sim, um amigo. Éramos do contra. Sabe? Contra o sistema. Bons tempos aquele.”
O sistema era tudo ou quase tudo, era o governo, a policia e a política. Tinha náuseas, sentia uma repulsão visceral a tudo que lembrava poder. O Djalma levava esta posição ao extremo.
“Eram rebeldes então.”
“Sim, ao extremo. Não exatamente eu, tinha o meu lado conservador. Gostava do ambiente acadêmico e tinha consciência de que tinha os meus privilégios. No caso do Djalma era Deus no céu, os homens e ele na terra.” Não queria compromisso com ninguém a não ser consigo mesmo.
“Olha a ironia do contraste. No nosso ultimo encontro ele estava de terno e gravata. Para ele eu havia capitulado uma vez que estava com a passagem da JAL nas mãos. Na verdade eu simplesmente estava colocando o Pé na Estrada, ele é que havia se encaixado no sistema.” O final da década de oitenta havia sido peculiar para o Djalma, o sistema havia atingido o vale. As referências anteriores como o Paulo Coelho e Castaneda não lhe serviam mais, não havia mais nada a fazer a não ser capitular.
A Omotesando está interditada nas proximidades da Estação JR Harajuku.
Jovens tomam conta das duas pistas da avenida. A maioria simplesmente passa observando os contrastes do local. Uma jovem gorda senta na calçada. Ela se realiza sendo o alvo de atenções com o seu véu, a grinalda e os lábios carnudos lambuzados com um batom vermelho cintilante.
Uma dupla faz a sua performance com um violão e um sax. Gostam de Harajuku e, em particular, do ambiente da Omotesando.
“JAQ & LITTLE BAND”
O Jaq abre uma pauta musical fazendo pose com o seu sax. O seu companheiro de violão usa uma camiseta listrada vermelha e calça preta. Canta, mais declama do que canta.
Escovo os dentes e penteio o cabelo. Vou para a área de serviço. A silhueta do Fuji domina a área, os seus lençóis freáticos alimentam o rio que corre nas proximidades e a água que sai da torneira. Preparo para a viagem.
“Depois conto como foi.” – digo para a Toshi.
“Te cuida.” Tomo o bus que, em uma hora e meia, me leva até Shinjuku. Em Shinjuku tomo o metro rumo a Harajuku.
O metro para na Estação. Subo a escada que vai dar na passarela, caminho pela mesma ganhando a saída principal. Caminho para o lado direito de quem sai da Estação. Dou de frente de uma área livre onde grupos de jovens realizam performances. Encontro com a jovem gorda, ela está olhando para um espelho de mão. Os seus lábios carnudos lambuzados pelo batom vermelho cintilante refletem no espelho. A sua colega do lado, igualmente fantasiada de noiva, ajeita o seu vestido branco. Estão à margem, sem serem marginais. Elas demonstram as suas rebeldias vivendo no interior do sistema, o vestido de noiva custa uma pequena fortuna.
Rua Takeshita, um formigueiro humano.
Vejo uma foto de Kimutaku, ela está no meio de inúmeras outras. Pego e vejo que ela não está produzida. Nela Kimutaku parece como um qualquer que está caminhando pela Takeshita, sem a aura que normalmente o envolve quando se apresenta nos seus shows e programas de TV. Caminho mais e acabo saindo da Takeshita.
Avenida Omotesando, grupos de performances.
Encontro com um animado Jaq.
Na sua frente, em um pedaço de papelão, lê-se o recado.
“JAQ & LITTLE BAND
4.22 Ruido / 5.15 Garage”
Farão as suas estréia nas “discos” Ruído e Garage nos dias vinte e dois de abril e quinze de maio.
O Jaq está com o cabelo tingido de vermelho e usa um vistoso brinco. É alto e o seu sapato de salto ressalta ainda mais a sua altura. Está transfigurado, vivendo e sentindo o sabor da liberdade. Se funde nas suas canções, no sax, na sua Pequena Banda e no público. O seu companheiro de violão toca preguiçosamente. Age como se fosse o pano de fundo da Banda.
O Jaq pega o sax e simula um êxtase, ensaia alguns passos de dança.
“Lembro como se fosse hoje
o dia que te encontrei.
Você estava linda, sorridente.” – declama.
Na frente da banda um grupo de jovens aplaude cada término de apresentação.
Sinto um arrepio subir pela minha coluna, os meus pensamentos se voltam para a Toshi que está esperando o meu retorno. Recordo nitidamente o ultimo encontro que havia tido com o Djalma, é como se a continuação de tudo aquilo estivesse no Jaq. A noite começa a colocar o seu negro manto sobre Harajuku. Mesmo sem o meu violão acompanho-o com o ultimo verso da “Garota”.
“Ah! Se ela soubesse que quando ela passa
o mundo inteirinho se enche de graça
e fica mais lindo por causa do amor.”
Naquele momento tudo se passa como se mundos estivessem se fundindo.
“Namastê, Jaq!”